Conveniente

Certa manhã me olhei no espelho;

Aquele reflexo não era eu.

Era só um ser displicente 

Que ser conveniente

Dia após dia aprendeu.

Tornei-me uma imagem esculpida

Pelas falas de um milhão de gente.

Pessoas que também sofridas

Por esse mal indecente.

De abrir mão de si mesmo

Por uma mera opinião,

Que tornam todos em nada

Um cego numa multidão.

Ouvindo um barulho infernal

Todos mostrando um sinal

Sem saberem a direção.

 

Aquele reflexo no espelho me assustou

Vi que os anos se passaram

E dei passos que não são meus.

Para tornar-me aceitável

Apostei minha sorte num breu.

É essa tal conveniência

Que me fez este ser banal.

Privei-me de minha essência

Causei-me terrível mal.

Pois enquanto vivi para tantos

Ninguém viveu para mim.

Minha história abandonada

Chegou a este triste fim

Um ser tristonho e errante,

De caminhar vacilante,

Que nunca sonhou ser assim.

 

Vi muitos naquela imagem refletida.

Vi meus pais, vi meus amigos,

Vi pessoas que tanto amo.

Vi apenas conhecidos

Percebi então meu engano.

Fiz de mim um personagem,

Um pouco de cada pessoa,

Tentei passar a imagem

De uma pessoa humilde e boa.

Fui conveniente a todos;

Abandonei-me a sorte.

Não fiz valer minha vida,

Vaguei sem planos, sem norte.

Aquela imagem que vi

Então chorou para mim

Rogando e pedindo suporte.