Só, sozinho!
Como o vento que toca a floresta,
Que sussurra aos montes,
Que vagueia depressa.
Que não pertence a nada.
E a nada é pertencido.
Que adianta andar
Por vales e colinas,
E não ter pra onde voltar,
Viver a triste sina.
De estar em qualquer canto,
Mas viver o castigo
De chorar o triste pranto
Por não encontrar um abrigo.
Só, como o vento!
Não estou num canto isolado.
Vivo em meio à pessoas
Tenho gente ao meu lado.
Mas superficialmente as toco
E superficialmente sou tocado.
São as mesma palavras,
Sempre as mesmas conversas.
E em todas as falas.
Eu percebo a pressa.
De a conversa encerrar
Quando é delicada.
Evitamos falar,
De coisas que são amargas.
Só, sozinho!
Tenho pessoas pra falar besteiras,
Para rir de piadas
E fazer brincadeiras.
Mas sinto medo e vergonha
Quando me sinto frágil.
Não sabia que era possível,
Ser tão só tendo a tantos.
Achei que era impossível,
Me ver chorar pelos cantos.
Procurando alguém de verdade
E não achando ninguém.
Com quem tivesse profundidade.
Com quem pudesse ir além.
Só, como o vento!
Continuo a correr minha estrada.
Tocando, sendo tocado
Nas superfícies das palavras.
Raso como uma correnteza
De um rio logo ao nascer.
Assim passo todos os dias
Por flores, matas e campos.
Em dias claros, noites frias,
Prossigo e vejo os encantos.
Mas quando volto a mim
Percebo um lamento sombrio
Que não quer mais ser assim,
Vivendo um viver tão vazio.