Eram onze e meia da manhã num dia em que a chuva caía insistentemente sob as ruas de São Judas. As pessoas andavam cuidadosamente com seus guarda-chuvas abertos entre uma barraca e outra da feira, procurando terminar as compras o mais rápido possível e ir para casa. Não era um dia bom para os feirantes, a freguesia quase não aparecia e muitos produtos estragavam durante a semana.
Pior ainda era para os moradores do Vale do Dendê, o povoado rural mais distante da cidade. Quando não vendiam toda a produção, a única solução era levar tudo de volta para ser consumido pela família, e naquele dia chuvoso quase ninguém vendeu nada. Todos, decepcionados com o rendimento da feira, estavam em cima do caminhão pau-de-arara prontos para voltar às suas casas enquanto a água continuava a cair.
O Ford f400 do Julindo pega a estrada ao meio dia em ponto, quando finda o asfalto os pneus já muito desgastados, começam a dar sinal que o cascalho deu lugar ao barro e entre uma curva e outra, deslizava na lama que se acumulava no chão. Nas ladeiras o povo ficava tenso, não foram poucas vezes que tiveram que ir para casa caminhando com a feira às costas por dez quilômetros ou mais.
— Eita nois! Se essa chuva não parar, esse caminhão não sobe a ladeira da jaqueira. — disse Benedito.
—- Vira essa boca pra lá homem de Deus! Com toda essa bagana que estamos levando de volta, se esse carro não subir teremos que ir no vale buscar os burros para levar tudo pra casa. — respondeu Antônio, muito preocupado.
O caminhão deslizava de um lado para o outro da estrada enquanto a chuva engrossava ainda mais. Depois de alguns minutos chegaram ao lugar mais temido por todos, a ladeira da jaqueira estava à vista, íngreme, extensa e com duas curvas antes do topo, uma para a direita e a outra para a esquerda. De longe se via a lama refletindo como um espelho, fazendo até o mais corajoso dos homens tremer diante do desafio que se apresentava.
— Caramba, a lama chega está espumando! — diziam temerosos.
Julindo acelerou o caminhão serra acima o máximo que se podia, logo começou o zigue zague, hora para um lado, hora para o outro. Conseguiram vencer a primeira parte da ladeira, passaram pela curva à direita com certa dificuldade. A F4000 já sem forças continuou a subir, passou pela curva à esquerda e quando parecia que tudo terminaria bem, atolou na última parte, a poucos metros do fim.
— Desçam todo mundo para empurrar o carro! — gritou Julindo.
Todos desceram apressadamente, mas alguns se prepararam para levar o carro até o topo, outros, subiram num pequeno barranco ao lado da estrada e se apoiaram na cerca de arame farpado para observar o que aconteceria.
Com a ajuda dos homens que empurravam com muito esforço, o caminhão voltou a avançar mais alguns metros. Todos com os pés na lama, a roupa amarela de barro e molhados com a chuva que continuava a cair. Enquanto isso, os outros debaixo de seus guarda-chuvas, lá do alto, começavam a narrar o que deveria ser feito.
— Vocês precisam empurrar com mais força, assim o carro não vai subir nunca!
— Tem gente aí que não está se esforçando muito, tem que pegar todos por igual!
— Isso está errado, tem muita gente do lado de lá, dividam melhor o pessoal….
Benedito que a muito já estava irritado, virou-se para a plateia e gritou: — Peru de fora come bosta! Querem ajudar, desçam daí e venham sujar os pés também.
A plateia calou-se, continuaram a observar sem dizer uma única palavra. Mas também não desceram para contribuir com o trabalho.
Depois de meia hora de esforço, o caminhão de Julindo chegou ao final da ladeira. Todos subiram novamente, uns completamente sujos de lama, outros limpos como um dia de sol, e continuaram a viagem até ao Vale do dendê.