Vale do Dendê – Episódio 02: O almoço na roça

José tem uma pequena propriedade no Vale do Dendê onde trabalha com sua mulher e seus filhos de sol a sol para conseguir sobreviver. Com seus mais de cinquenta anos vividos, a sua pele negra carrega as marcas do esforço diário na árdua lida do campo que não lhe fez um homem rico como sonhara quando menino.

Certa feita, ao chegar na cidade José encontra seu amigo Luiz, proprietário de um bar numa praça bem movimentada.

— Bom dia seu Zé! — diz Luiz com um sorriso largo no rosto, apressando-se para pegar na mão do simples agricultor. — Como estão as coisas?

—  Estão como Deus quer seu Luiz! A luta é grande, mas é assim mesmo!

— É a vida meu amigo. O importante é ter saúde, o resto a gente corre atrás não é mesmo?

— É sim. Coragem não falta!

— Mas me diga uma coisa seu Zé… Quando você vai me levar para comer aquela famosa galinha no seu sítio? Faz tempo que eu não como uma galinha de quintal, e eu soube que sua esposa faz um pirão que não existe igual.

— Oxi, na hora que o senhor quiser! Vá lá no domingo que vem.

— posso ir mesmo?

— Pode, vou mandar a mulher matar uma galinha bem gorda pra a gente comer.

Quando chega o domingo, Luiz chega na propriedade de José logo cedinho e aproveita para visitar suas plantações. Na caminhada ele começa a elogiar tudo o que ver pela frente e não demora para o simples senhor começar a lhe ofertar alguns presentes.

— Quer levar uns dois cachos de banana seu Luiz?

— Claro seu Zé, e se o senhor tiver daquele aipim ainda eu vou querer um pouco também.

— Tem bastante na roça de cima, vou lá buscar. É bom que já trago também o inhame que você tanto gosta.

Luiz fica feliz com os presentes que recebe e logo coloca no porta malas. Aipim, banana, inhame, mamão, acerola e tudo mais que encontrou pela frente. No almoço, além da galinha caipira, ainda teve costela, e uma paca que ele comeu metade e na saída conseguiu levar o restante consigo.

Ao chegar a tarde, Luiz foi para casa com o carro carregado de produtos que não lhe custou dinheiro algum e com a barriga cheia de uma comida deliciosa e gratuita. 

À noite, o filho de José inocentemente lhe questiona: — Papai, porque todas as pessoas que vem da cidade até aqui, levam nossos produtos de graça e quando vamos lá precisamos pagar por tudo?

— É que nos mercados e nos bares da cidade eles compram pra revender, aqui tudo é Deus quem dá, meu filho.

— Mas nós compramos adubos, ferramentas, equipamentos e ainda trabalhamos sem saber se no fim do mês teremos como fazer a feira…

— Jorge, não seja ingrato! — ponderou José com um olhar impaciente.

— Não é ingratidão papai.. Eu só acho que no dia em que o senhor parar de doar nossos produtos, as pessoas vão parar de te visitar.

— Você está dizendo que as pessoas não gostam de mim? — José se levanta da cadeira onde estava e com um olhar intimidador se aproxima de Jorge.

— As pessoas se aproveitam de nós, papai. Toda semana alguém vem aqui e leva alguma coisa… isso para mim não é gostar.

— Ah moleque! Você está muito ousado depois que entrou nessa tal de faculdade. Mas espera que eu vou lhe ensinar uma lição. — José retira o seu cinto para surrar seu filho, este porém, pula a janela e sai correndo pelo terreiro e se embrenha na roça de cacau logo alí.

Depois de alguns minutos, José começa a pensar em todas as pessoas que o visitaram nos últimos meses e a quantidade de produtos que ele doou a cada um. Com um papel na mão chamou sua esposa e começou a calcular o quanto daria em dinheiro caso as pessoas lhe pagassem o valor devido.

— Mil e duzentos reais em quatro meses! — disse ela espantada.

— Como assim Jurema? Isso é muito dinheiro!

— Seu filho não está errado José… essas pessoas não gostam da gente!